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Orar, Agradecer, Vigiar, Recomeçar

Este post originalmente teria o título 'Cessar para Compreender'. Talvez será possível perceber este título anterior ao longo do post. De qualquer forma,espero que o novo título possa transmitir a idéia central do texto. Agradeço aos que lerem.

***

Purificação

1. Honra igualmente os teus pais, e aqueles que te são mais próximos.
2. De todo o resto da humanidade, faz teu amigo aquele que se distinguir pela sua virtude.
3. Ouve sempre as suas pacíficas exortações, e toma como exemplo as suas virtuosas e úteis ações.
4. Evita tanto quanto possível odiar os teus amigos por faltas insignificantes.
5. E compreende que poder é um vizinho próximo da necessidade.
6. Sabe que todas estas coisas são como as disse a ti; e habitua-te a superar e a vencer estas paixões:
7. Primeiro a gula, preguiça, luxúria e ira.
8. Não faças nada de mal, nem na presença de outros, nem em privado,
9. Mas acima de tudo, respeita-te a ti mesmo.
10. A seguir, observa a justiça nos teus atos e nas tuas palavras,
11. E não te habitues a comportares-te em todas as coisas sem regra e sem razão,
12. Mas considera, sempre, que é ordenado pelo destino que todos os homens morram,
13. E que os bens da sorte são incertos; e que como podem ser adquiridos, assim podem ser igualmente perdidos.
14. No que concerne a todas as calamidades que os homens sofrem pela divina fortuna,
15. Suporta, com paciência, o teu fado, seja ele qual for, e nunca te lastimes,
16. Mas esforça-te no que puderes corrigir.
17. E leva em consideração que o destino não envia a maior porção destas desgraças aos homens bons.
18. Há entre os homens muitas formas de raciocinar, boas e más;
19. Não os admires nem os rejeites com muita facilidade.
20. Mas se forem ditas falsidades, ouve-os com suavidade, e arma-te com paciência.
21. Observa bem, em todas as ocasiões, o que te vou dizer:
22. Não deixes que nenhum homem, seja por palavras, seja por atos, te seduza,
23. Nem te seduzas tu ao dizeres ou fazeres o que não for proveitoso para ti mesmo.
24. Informa-te e delibera antes de atuares, para que não cometas ações disparatadas,
25. Porque isso é próprio de um homem miserável: o falar e atuar sem refletir.
26. Mas faz o que mais tarde te não afligir nem te causar arrependimento.
27. Nunca faças nada que não compreendas.
28. Mas aprende tudo o que tens obrigação de conhecer, e assim levarás uma vida feliz.
29. De nenhum modo neglicencies a saúde do teu corpo;
30. Mas dá-lhe bebida e comida na justa medida, e exercita, também, o que de tal tiver necessidade.
31. Por medida quero dizer o que te não incomoda.
32. Habitua-te a um estilo de vida simples e decente, sem ostentações.

(Versos de Ouro, supostamente atribuído a Pitágoras)

Terça-feira, dia 18 de Fevereiro de 2013, finalizei com a prática do Orai e Vigiai [disponível originalmente aqui, ou aqui]. Errei na contagem sugerida de 30 dias, e acrescentei um dia. Não vi problema nisso, embora tenha feito um compromisso próprio em realizar a prática como descrito.

Já havia lido a prática em si há muito tempo, mas não dei muita atenção para o objetivo dela. E também já tinha visto o relato de algumas pessoas em uma rede social em relação a ela.

Por volta de Novembro do ano passado, 2012, tomei a decisão de fazer uso de um dos meus cadernos utilizados para relatar e escrever coisas e então fazer as três listas sugeridas.

Iniciei, então, a primeira parte da prática. Tomei também algumas folhas de papel A3, o dobro do tamanho de uma folha de papel A4 e transcrevi a prática para lá. Não existe necessidade de se fazer isso, mas pessoalmente senti a necessidade de deixar a prática escrita para mim mesmo. Percebo que aquilo que escrevo permanece fixo por mais tempo do que aquilo que apenas leio.

Desmereci a prática por não conhecê-la. Lendo o conteúdo, você pensa: "ah, isso aqui é moleza". E assim pensei. E a aparência desta prática simples, revela um poder incrível contido nela.

No entanto, uma prática em que exige que você revise as suas convivências é sempre um desafio. Antes mesmo de me deparar com a parte mais complicada (citada pela autora como o Vigiai), percebi que aquela simplicidade da prática ainda mostraria algo além. É simples, embora seja profunda.

Desde o dia em que tomei três folhas de amarelado papel acid-free, tive que a obrigação de escrever as listas. Na primeira delas, a lista A, estaria o nome das pessoas que me magoam ou me magoaram. Inicialmente coloquei várias pessoas. Mas a prática exige que você faça uma reflexão, um exame das situações e finalmente faça a pergunta: "realmente esta pessoa lhe magoou ou você apenas está vendo de forma errada"? E por conta disso, retirei a maioria dos nomes. Eu havia colocado, por exemplo, o nome da maioria das pessoas com as quais trabalhava, pois acreditei que todas elas me magoaram de alguma forma. Depois de analisar corretamente, percebi que muitas vezes eu me envolvia em situações com a cabeça quente e no final, sentia-me como tendo sido magoado, embora esta não tenha sido a intenção das pessoas envolvidas. Após muito pensar, a minha lista A finalizou com onze nomes, envolvendo sim algumas pessoas do trabalho, mas também pessoas de outras áreas de minha vida.

A seguir, a próxima lista deveria conter tudo aquilo que você deseja agradecer. Tudo aquilo que é seu, ou está disponível para você e que não recebe a atenção do seu obrigado. Ou algumas vezes recebe, embora de forma muito "obrigado, não faz nada além de sua obrigação".

Minha lista B continha desde o meu emprego e aos responsáveis por tê-lo, dos cuidados de minhas avós e a atenção de minhas tias quando estava triste, ao aprendizado diário com outras pessoas, passando pelo acesso ao conhecimento que tenho [incluíndo editoras, livros, autores, inspiradores, etc.], passando por uma coisa meio animista e agradecendo ao ar, água, ao solo, aos animais e plantas, ao lugar onde moro. Incluí também a minha segurança e proteção, que é algo que percebo passar despercebido por muitas pessoas.

(A autora da prática, Katy de Mattos Frisvold também estava na lista B, por vários motivos, e em especial pela prática e por dispor a todos).

Agradeci por aqueles que por meio de seu trabalho, facilitam de alguma forma a minha vida e a vida de outras pessoas: desde os atendentes de algum lugar que visito durante a semana, aos transportadores, agricultores, vendedores. Por meio deles muitas coisas de nossa necessidade chegam a nós. O mesmo fiz com os prestadores de serviço presente em meu dia-a-dia, especialmente aos motoristas e cobradores de ônibus, algo que faço uso diariamente e é essencial, pelo o menos para mim.

Agradeci pelas pessoas que vejo diariamente, por aquelas que estão em torno de mim, vizinhos, colegas de trabalhos, as pessoas que vejo e que me veem diariamente. Pelas pessoas que me perguntam a hora no ponto de ônibus, ou daquelas que me perguntam qual ônibus devem pegar pra ir para algum lugar.

E agradeci aos meus familiares, parentes, ancestrais, antepassados, aos que são do meu sangue, físico ou espiritual, e que antes de mim vieram. Sem eles não existiria a família pela a qual eu também agradeci. Agradeci pela minha saúde e a saúde de todos da família. Agradeci por meus pais e pelo esforço que fizeram para ser o que sou hoje, assim como meus irmãos. Agradeci por aqueles da família que não tenho muito contato. O amor abraça a todos vocês também, e embora não tenha contato, lembro de cada um de vocês nos momentos em que existia um contato, mesmo que distante, e isso, de certa forma, já é o suficiente.

E ao falar em família, a prática escrita termina com a lista C, onde os nomes dos ancestrais são colocados.

O meu avô materno havia falecido no início de Setembro de 2012. Acredito que tenha esperado um pouco mais de tempo em realizar a prática em respeito ao falecimento recente dele. No entanto, este fato permitiu que mais uma vez revelações do passado de minha família fossem revelados pela querida dona Judith, uma das donas de meu coração. Descobri, em meio há algumas tardes de boas histórias, por exemplo, o nome dos pais dela, e dos pais do recém falecido sr. Hilton.

Acrescentei também o nome de uma senhora que foi vizinha de nossa família por muito tempo e foi muito presente durante a infância de meus irmãos, dona Luzia, assim como sr. Francisco, um senhor que ganhou o respeito de meu pai, principalmente quando o pai dele faleceu. Acrescentei eles por perceber que outras pessoas da família [no caso, meus pais], tinham respeito por eles. E se eles respeitam, eu também respeito.

E durante 31 dias eu levantava mais cedo do que estava acostumado, para preparar um pequeno criado-mudo com uma toalha branca, uma antiga foto do meu avô paterno, um copo com água e uma xícara de café feito e coado por mim. Uma vela branca com uma chama imóvel me assistia juntamente com o olhar de um dos patriarcas da família, enquanto citava o nome de pessoas que me magoaram, direcionando a elas um perdão pelas mágoas, um agradecimento pelo aprendizado e uma benção por estarem presentes em minha caminhada, em minha vida. E em seguida agradecia a tudo o que está disponível a mim, e que nunca receberam o devido valor. E pedia que os laços espirituais com os entes idos fosse fortalecido, que a presença deles fosse constante, pois mesmo mortos, os laços espirituais e familiares são mantidos.

Os primeiros dias formam muito fortes para mim, especialmente em relação a lista C. Chorei bastante durante a prática ao recordar deles, mesmo lembrando dos meus velhinhos sempre em situações felizes, rindo. Sentia sempre, durante a lista A, a necessidade de que meu coração estivesse aberto de forma sincera e em alguns dias percebi que não estava fazendo aquilo da maneira correta. Estava fazendo de forma robótica, por fazer. Isso não era sincero. E então na minha prece inicial eu sempre pedia para que meu coração fosse aberto para realizar de forma sincera aquela prática e que cada palavra proferida fosse falada não da boca-corpo, mas da boca-coração.

Porém, o Orai e Vigiai não é somente isto. Ao longo dos dias existem provas apresentadas a mim e elas deveriam ser vencidas. Especialmente se da sua lista A fazem parte de pessoas com as quais você convive.

Surgem situações que lhe convidam ao falar, pensar ou agir de maneira incorreta em relação aos que estão na lista A. E é contra as armadilhas destas situações que aquele(a) que realiza esta prática deve lutar. Inicialmente, logo que as situações apareciam, um estalar acontecia e logo percebia que estava diante de um teste. Assim, logo tentava mudar de assunto, ou sair do lugar onde as pessoas estavam criticando outras.

Um exemplo que me surpreendeu foi o de uma pessoa que estava na minha lista A, um dos meus superiores no trabalho. Sei que minha relação com ele nunca foi das melhores desde o primeiro dia em que vi e convivi com ele. No entanto, desde o dia em que comecei a realizar a prática, minha relação com ele mudou drasticamente. Era comum, por exemplo, brigas constante, ou caras fechadas, ou aborrecimento de ambas as partes. Após iniciar a prática, a forma como ele se dirige a mim mudou, o tom de voz comigo mudou, o tratamento, enfim. Fiquei surpreso com tudo isso. E a mudança deve ser recíproca.

No entanto, novamente para minha surpressa, algo me mostrou que muitas coisas precisam mudar. Uma das pessoas mais 'espiritualizadas' que trabalham comigo, um dito irmão em Cristo, mostrou-se a pessoa mais crítica em relação a este superior. Fiquei surpreso ao ver o quanto a filosofia religiosa seguida por ele não permitiu que as virtudes e valores pregados fossem direcionados ao trabalho e à convivência, ao mudar. Em certo dia, após o expediente, este irmão me chamou e começou a apresentar uma série de fatos e acontecimentos e abertamente até mesmo o desejo de que o superior fosse demitido.

Fiquei feliz em ver que na grande maioria das situações, tinha a noção de como agir [na verdade, evitar agir, pensar ou falar] e o quanto isso me trouxe coisas boas posteriormente.

Para finalizar este relato, estas são as conclusões finais quanto ao Orai e Vigiai. Esta prática é uma série de desafios: é refletir sobre quem lhe magoou [e quem também você magoa], é um reconhecimento pelas coisas que você tem e que estão disponíveis para você e é um resgate aos seus ancestrais. E como dona Judith diz, recorda é viver duas vezes, e ao recordar de seus ancestrais, você recorda de uma história que também é sua, permite que eles façam parte de sua vida, assim como você faz parte da história deles, continuando o legado deles.

Muitas coisas melhoraram para mim após a realização da prática. Minha relação com minha família mais próxima, por exemplo, está mais forte e presente. Mantenho mais contato com muitas pessoas que agradeci na lista B. Tive a oportunidade de conhecer de outra forma algumas das pessoas da lista A. Uma delas, por exemplo, é um estudante de Tarô e eu, como aprendiz no estudo deste óraculo, estou aprendendo, na medida do possível, com esta pessoa.

Sintia, sempre, uma presença confortante no local onde realizava a prática. Até o cheiro do café, ao voltar para casa, lembrava a casa do velho Joaquim. Assim que terminei o período da prática, senti a falta de todo o dia, ao acordar, desejar bom dia a ele, naquela foto, novo, jovem e de pedir sua benção ao sair.

O motivo de relatar a prática aqui é para mostrar que algo tão simples quanto o Orai e Vigiai possui sim, um poder incrível. Por este motivo a simplicidade da prática é de um efeito profundo. E desde então eu decidi recomeçar muitas coisas. Meus estudos estão com um combustível acrescentando e muitas coisas boas estão acontecendo.


Basta que seja  cessado o berrador, o agressor, o maquiavélico pensador interno, e então surgirá compreensão. Então o orador, numa prece constante, em sussuros, será ouvido. Aquele que pensa antes de agir, será percebido. E o sábio interno será buscado. É necessário e importante cessar algumas coisas, às vezes, para que os verdadeiros agentes possam ser percebidos.

E ao fim, descobri que estas bençãos e muitas outras estiveram sempre ali, prontas para serem recebidas. Faltava apenas espaço, faltava apenas onde colocar. Contudo, o vaso, o receptáculo para elas, o anfitrião destas boas dádivas, estava sempre ocupado com um vinagre, um conteúdo nocivo, um ácido, com visitantes que não mereciam atenção. E descobri que quando você se livra deste ácido, deste vinagre, destes maus hóspedes, você é capaz de receber as boas dádivas. Tudo é questão de esvaziar e estar devidamente preparado para recebê-las.


Basta esvaziar o vaso e estar disposto a preenchê-lo com um bom conteúdo.

Que as bençãos possam ser dos mesmo número das estrelas do céu.

Amém!

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Hereditariedade fragmentada

Imperatriz, 27 de Julho de 2011.

Durante o período de férias, dividi meu tempo em viagens entre a cidade onde a maioria dos meus parentes moram atualmente, inclusive meu pai, mãe e tias, e a cidade onde nasci. Os motivos foram dois, sendo o primeiro deles por conta de algumas consultas médicas que deveria fazer e por conta da minha vó e meu vô. Depois que vim morar em São Luís o contato com eles se tornou cada vez mais difícil, até mesmo por telefone.

Sempre foi fácil perceber que não tive tanto contato com meus avôs, tanto paterno quanto materno e isso é algo que ocorreu desde tenra infância. Não sei bem como explicar, mas minhas afinidades com as mulheres da família sempre foram mais fáceis (tias, primas, avós, vizinhas) do que com os homens. Já o contato com minhas avós sempre foi mais fácil. A paterna, muito provavelmente, por conta de minha semelhança física com meu pai. A materna, por um grande amor e cuidado que nunca soube de fato de onde brota.

Eu nunca tive a grande preocupação de questionar sobre o passado de nenhum dos meus avôs e avós. Primeiramente devido ao desinteresse de que em minha fase de infância e adolescência, não existia essa preocupação ou interesse do passado deles. E após perder o vô Joaquim em 2007, enquanto estava em um período de 'escurecimento', e depois de alguns meses foi que descobri a importância do passado de meus pais, de meus avôs, de minha família. Após o falecimento dele eu percebi que boas e dolorosas lembranças se foram, e essas lembranças não eram exclusivamente do seu Joaquim, mas de toda a família. Não era apenas os arranjos simples tocado em um teclado eletrônico, ou um violão velho guardado no fundo do quarto de tijolos de barro crú, tampouco os versos simples escritos em uma cartolina e pendurados próximo ao seu quarto, falando que riqueza alguma compraria o seu sossego descoberto em sua simplicidade.

Minha mãe foi quem conseguiu me esclarecer algumas coisas e sobre esse ancestral, disse que ele foi encantado pelo o sonho do garimpo, mas nunca conseguiu grandes riquezas. Esse sonho também foi compartilhado por alguns dos filhos, e um deles foi meu pai. A dor que meu avô se arrepende, foi a de deixar sua família por mais de 40 anos sem ter notícias suas. A mãe dele, segundo o que minha mãe contou, sempre soube que seu filho não havia morrido, como algumas pessoas disseram, e ela morreu segurando em suas mãos a foto de seu filho querido. Ele, arrependido, chorava sempre por conta disso.

Felizmente os meus avôs paternos ainda estão vivos e ainda posso ouvir as histórias de dona Judith. Quanta vida em tão pequeno corpo! Durante essas visitas, ela sempre falava de seu pai, seu Antônio. A memória dela está falhando, mas para esses acontecimentos passados ela ainda tem uma recordação muito boa. Ela perdeu a mãe muito cedo e foi educada pelo pai. Por isso ela considera o pai dela um homem muito sábio, conhecedor dos segredos da vida, pois vivera tanto nos interiores quanto nas cidades, por isso viveu diversas coisas. Ontem, quando meu primo deixou um pouco de comida no prato, ela disse: 'meu pai assim dizia, aquilo que a terra dá, a terra come', que pensei ser apenas uma idéia do processo de renovação de resíduos sólidos, mas ela me disse que a terra dá o alimento ao homem para que o homem (corpo físico) sirva de alimento, algum dia, para a terra.

E então eu perguntei sobre o pai dela, o admirável seu Antônio... e assim ela me contou:

"Todo mundo estava esperando os preparativos para o casamento, que seria no interior. Naquele tempo eles faziam uma festa grande e os preparativos eram feitos com muitos dias de antecedência. Preparavam as bebidas, matavam os bois para assar, traziam as grandes panelas para preparar as comidas e os familiares e amigos chegavam. Durante esses preparativos, papai ficou sabendo que a mulher que era sua noiva era 'amigada' com um outro rapaz. Mas naquele tempo, quem ficava noivo de alguém, deveria casar, não podia recuar, pois era trato de família. Meu pai, que não era besta, resolveu fugir, indo para as proximidades de Serra Azul, no Ceará. Lá era onde os donos de terras colocavam os 'bons meninos' — e assim dona Judith chamou os malfeitores daquele tempo — para que eles ficassem trabalhando, e quando fosse preciso, mandar eles fazerem algum 'trabalho'.

Ele ficou lá até que o sumiço dele fosse percebido e a noiva pudesse dar conta de que o sua traição já havia sido percebida. Mas ele não passou despercebido. Aqueles homens que lá viviam, logo desconfiaram que não era normal um rapaz estudado viver naquele lugar, reduto de capangas. Logo um deles comentou com outro que no quarto de Antônio havia uma sacola muito grande de dinheiro. E preocupado, papai tentou logo dar um jeito de sair de lá. Mas ele não podia sair durante o dia, para que ninguém encontrasse ele, principalmente algum amigo da família da noivo, ou algum irmão.


Então ele encontrou um senhor que disse que o levaria até a fronteira da tal Serra Azul com aquele interior, para que ele pudesse fugir de lá também, antes de que alguma outra coisa pior acontecesse com ele. Deveria ser de noite. A única coisa que o acompanharia seria a família dele, que ele não queria deixar sozinha, e um lampião para iluminar o caminho. A caminhada foi durante boa parte da noite e ao chegar próximo da fronteira. 'Daqui em diante eu não posso levar o senhor', disse o homem que levou Antônio até ao limite do interior. Em recompensa, Antônio entregou algum dinheiro ao homem.


Em seguida ele seguiu sozinho, até encontrar em um casebre um velho. E lá ele pediu acolhida, ou que ele apontasse por onde deveria ir para que não encontrasse as pessoas que ele não deveria ver, com grande ameaça de por sua vida em risco. E o velho disse: 'meu filho, outro caminho por onde ir não há, somente esse, e é encontrando essas pessoas. E papai decidiu enfrentar o seu destino, disse minha vó, mas antes de seguir caminho, o velho deu um chapéu ao meu pai, e disse: 'com esse chapéu e ao dizer estas três palavras, mesmo diante de quem te procurar, não serás reconhecido'". Dona Judith não se recorda das palavras, e minha mãe me contou uma outra parte ou versão dessa história, dizendo que ele se vestiu de outra forma. Mas as duas falam que ele passou sim diante de um dos irmãos da noiva, e que não foi reconhecido.


As palavras ficaram no esquecimento de dona Judith. E ela conta que seu Antonio conseguiu fugir do Ceará dessa forma, escapando do casamento com uma noiva já comprometida e da ira da família dela. Ela casou com o outro pretendente e a família dela hoje vive em abundância e riqueza. Seu Antonio voltou para agradecer ao tal velho que lhe ajudou, mas segundo ele, nunca ele mais foi visto, nem mesmo o seu casebre.


Estes poucos fragmentos da minha família me deixaram contente, por poder conhecer um pouco do que aconteceu com aqueles que vieram antes de mim. Se são totalmente verdade, ou estão dentro de alguma lenda ou fantasia, não sei, mas são essas histórias, nossas histórias, juntamente com o respeito e os valores familiares, que devem ser mantidos.


Agradeço aos que já se foram, seu Joaquim e tio Geová, e aos que ainda estão aqui, dona Judith, dona Olívia e seu Nilton. O amor de vocês, mesmo com o rigor dos conselhos, faz todos os seus filhos, netos, sobrinhos, e amigos crescerem. Obrigado!


Leonardo M. P.

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