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Das minhas confusões

Não tenho nenhum problema em afirmar que sou um inexperiente em diversas coisas, tampouco vergonha de afirmar que não sei ou não conheço outras. Não tenho pretensão de parecer conhecedor de vários assuntos em algumas conversas. E essa minha pose não é de boçalidade, é de despreocupação com o que pensam de mim.

Quando alguém me vê torto, provavelmente tentando encontrar o ponto que me separa da normalidade, eu penso na imagem do O Louco no Tarot. Nas fontes que já li, não em todas, mas em muitas delas, essa figura executa um papel duplo. O Louco é visto como uma criatura distinta, diferente da forma como pensa e como leva sua vida. Tanto que ele se arrisca a andar pela beira de um penhasco ou de um precipício, embora não leve o medo em sua face. Em alguma parte deste aspecto eu vejo ingenuidade natural, de não conhecer o risco, embora se arrisque, de estar disposto a conhecer, a saber, sem ter a noção do que isso implica. Ele é visto de fora, pelos outros. Um bobo, um tolo.

Em outro aspecto, ele é aquele que carrega a Loucura Divina, alguém que foi tocado por algum deus e agora conduz seu caminho guiado por essa ‘ferida aberta’. No Tarot de Nigel Jackson, este primeiro arcano é ilustrado com um bastão, e neste bastão estão alguns pequenos ramos de uvas. E como todos sabem, vinho é produzido a partir uva, assim como de outras frutas. E o vinho é sagrado (ou talvez sangrado) a alguns Deuses. Deuses que conduzem ao êxtase. Êxtase que cria Loucos. Loucos Divinos, Loucos Sagrados.

A faceta da Loucura dada pelos deuses é a de quem conhece algo, experimentou algo divino e carrega consigo o sabor da sabedoria.

O Louco é o número 0, aquele que está antes de qualquer outro número e que antecede o 1, o primeiro. O Louco é aquele que inicia o caminho e descobrirá o mundo, seus segredos e mistérios, suas paisagens e aqueles que nele vivem. Mas o 0 também é o fim de tudo. É quando ele terminou sua viagem e retorna de sua peregrinação.

O Louco, no início, é aquele que alegra os outros por sua ignorância, por sua ingenuidade, por seu papel como bobo. No fim, ele ri embriagado de sabedoria e experiência e vê que aquilo que conheceu pode servir aos outros, como um guia, um indicador.

Volto agora para minhas confusões. Não sei como o Louco pode ser visto atualmente por mim, nem se existe momento de oscilação entre as facetas deste arcano em um nível pessoal.

As pessoas talvez me vejam muito mais como um divertimento, um bobo alegre que faz piadas, sem ter um algo a acrescentar na vida dos outros. Tímido moleque, sem responsabilidade, que respeita apenas a quem de algo ele precisa. Louco visto por fora.

Evito querer parecer conhecedor de algo, por isso prefiro o silêncio ao falatório. Respeito o que os outros sabem e sou um bom ouvinte. Mas querer me impor alguma opinião ou um conhecimento faz com que eu ganhe um tom de despreocupação arrogante, que dá de ombros para estas opiniões construídas sem conhecer de fato as questões.

Talvez Louco se aproxime de Louco, pois seja um saber vindo de sua experiência e a experiência verdadeira do outro é sentida como um relato vivo dele.

Essa confusão de não entender muitas coisas do mundo, das pessoas, dos acontecimentos, borbulham efervescentemente. Assumo minha loucura como um ignorante, como alguém que está em campo aberto para aprender com o mundo. Assumo minha prontidão para andar, correr, voar, vasculhar, ver, ouvir, observar. Assumo minha disposição de ignorar os ‘padrões’ de inteligência moldada e milimetricamente comum.

Minha saudações aos outros loucos, quer sejam os tolos, quer sejam os divinos.

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Imagem retirada daqui (fuckotheclown, via deviantart)

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