Archive for Fevereiro 2013

Orar, Agradecer, Vigiar, Recomeçar

Este post originalmente teria o título 'Cessar para Compreender'. Talvez será possível perceber este título anterior ao longo do post. De qualquer forma,espero que o novo título possa transmitir a idéia central do texto. Agradeço aos que lerem.

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Purificação

1. Honra igualmente os teus pais, e aqueles que te são mais próximos.
2. De todo o resto da humanidade, faz teu amigo aquele que se distinguir pela sua virtude.
3. Ouve sempre as suas pacíficas exortações, e toma como exemplo as suas virtuosas e úteis ações.
4. Evita tanto quanto possível odiar os teus amigos por faltas insignificantes.
5. E compreende que poder é um vizinho próximo da necessidade.
6. Sabe que todas estas coisas são como as disse a ti; e habitua-te a superar e a vencer estas paixões:
7. Primeiro a gula, preguiça, luxúria e ira.
8. Não faças nada de mal, nem na presença de outros, nem em privado,
9. Mas acima de tudo, respeita-te a ti mesmo.
10. A seguir, observa a justiça nos teus atos e nas tuas palavras,
11. E não te habitues a comportares-te em todas as coisas sem regra e sem razão,
12. Mas considera, sempre, que é ordenado pelo destino que todos os homens morram,
13. E que os bens da sorte são incertos; e que como podem ser adquiridos, assim podem ser igualmente perdidos.
14. No que concerne a todas as calamidades que os homens sofrem pela divina fortuna,
15. Suporta, com paciência, o teu fado, seja ele qual for, e nunca te lastimes,
16. Mas esforça-te no que puderes corrigir.
17. E leva em consideração que o destino não envia a maior porção destas desgraças aos homens bons.
18. Há entre os homens muitas formas de raciocinar, boas e más;
19. Não os admires nem os rejeites com muita facilidade.
20. Mas se forem ditas falsidades, ouve-os com suavidade, e arma-te com paciência.
21. Observa bem, em todas as ocasiões, o que te vou dizer:
22. Não deixes que nenhum homem, seja por palavras, seja por atos, te seduza,
23. Nem te seduzas tu ao dizeres ou fazeres o que não for proveitoso para ti mesmo.
24. Informa-te e delibera antes de atuares, para que não cometas ações disparatadas,
25. Porque isso é próprio de um homem miserável: o falar e atuar sem refletir.
26. Mas faz o que mais tarde te não afligir nem te causar arrependimento.
27. Nunca faças nada que não compreendas.
28. Mas aprende tudo o que tens obrigação de conhecer, e assim levarás uma vida feliz.
29. De nenhum modo neglicencies a saúde do teu corpo;
30. Mas dá-lhe bebida e comida na justa medida, e exercita, também, o que de tal tiver necessidade.
31. Por medida quero dizer o que te não incomoda.
32. Habitua-te a um estilo de vida simples e decente, sem ostentações.

(Versos de Ouro, supostamente atribuído a Pitágoras)

Terça-feira, dia 18 de Fevereiro de 2013, finalizei com a prática do Orai e Vigiai [disponível originalmente aqui, ou aqui]. Errei na contagem sugerida de 30 dias, e acrescentei um dia. Não vi problema nisso, embora tenha feito um compromisso próprio em realizar a prática como descrito.

Já havia lido a prática em si há muito tempo, mas não dei muita atenção para o objetivo dela. E também já tinha visto o relato de algumas pessoas em uma rede social em relação a ela.

Por volta de Novembro do ano passado, 2012, tomei a decisão de fazer uso de um dos meus cadernos utilizados para relatar e escrever coisas e então fazer as três listas sugeridas.

Iniciei, então, a primeira parte da prática. Tomei também algumas folhas de papel A3, o dobro do tamanho de uma folha de papel A4 e transcrevi a prática para lá. Não existe necessidade de se fazer isso, mas pessoalmente senti a necessidade de deixar a prática escrita para mim mesmo. Percebo que aquilo que escrevo permanece fixo por mais tempo do que aquilo que apenas leio.

Desmereci a prática por não conhecê-la. Lendo o conteúdo, você pensa: "ah, isso aqui é moleza". E assim pensei. E a aparência desta prática simples, revela um poder incrível contido nela.

No entanto, uma prática em que exige que você revise as suas convivências é sempre um desafio. Antes mesmo de me deparar com a parte mais complicada (citada pela autora como o Vigiai), percebi que aquela simplicidade da prática ainda mostraria algo além. É simples, embora seja profunda.

Desde o dia em que tomei três folhas de amarelado papel acid-free, tive que a obrigação de escrever as listas. Na primeira delas, a lista A, estaria o nome das pessoas que me magoam ou me magoaram. Inicialmente coloquei várias pessoas. Mas a prática exige que você faça uma reflexão, um exame das situações e finalmente faça a pergunta: "realmente esta pessoa lhe magoou ou você apenas está vendo de forma errada"? E por conta disso, retirei a maioria dos nomes. Eu havia colocado, por exemplo, o nome da maioria das pessoas com as quais trabalhava, pois acreditei que todas elas me magoaram de alguma forma. Depois de analisar corretamente, percebi que muitas vezes eu me envolvia em situações com a cabeça quente e no final, sentia-me como tendo sido magoado, embora esta não tenha sido a intenção das pessoas envolvidas. Após muito pensar, a minha lista A finalizou com onze nomes, envolvendo sim algumas pessoas do trabalho, mas também pessoas de outras áreas de minha vida.

A seguir, a próxima lista deveria conter tudo aquilo que você deseja agradecer. Tudo aquilo que é seu, ou está disponível para você e que não recebe a atenção do seu obrigado. Ou algumas vezes recebe, embora de forma muito "obrigado, não faz nada além de sua obrigação".

Minha lista B continha desde o meu emprego e aos responsáveis por tê-lo, dos cuidados de minhas avós e a atenção de minhas tias quando estava triste, ao aprendizado diário com outras pessoas, passando pelo acesso ao conhecimento que tenho [incluíndo editoras, livros, autores, inspiradores, etc.], passando por uma coisa meio animista e agradecendo ao ar, água, ao solo, aos animais e plantas, ao lugar onde moro. Incluí também a minha segurança e proteção, que é algo que percebo passar despercebido por muitas pessoas.

(A autora da prática, Katy de Mattos Frisvold também estava na lista B, por vários motivos, e em especial pela prática e por dispor a todos).

Agradeci por aqueles que por meio de seu trabalho, facilitam de alguma forma a minha vida e a vida de outras pessoas: desde os atendentes de algum lugar que visito durante a semana, aos transportadores, agricultores, vendedores. Por meio deles muitas coisas de nossa necessidade chegam a nós. O mesmo fiz com os prestadores de serviço presente em meu dia-a-dia, especialmente aos motoristas e cobradores de ônibus, algo que faço uso diariamente e é essencial, pelo o menos para mim.

Agradeci pelas pessoas que vejo diariamente, por aquelas que estão em torno de mim, vizinhos, colegas de trabalhos, as pessoas que vejo e que me veem diariamente. Pelas pessoas que me perguntam a hora no ponto de ônibus, ou daquelas que me perguntam qual ônibus devem pegar pra ir para algum lugar.

E agradeci aos meus familiares, parentes, ancestrais, antepassados, aos que são do meu sangue, físico ou espiritual, e que antes de mim vieram. Sem eles não existiria a família pela a qual eu também agradeci. Agradeci pela minha saúde e a saúde de todos da família. Agradeci por meus pais e pelo esforço que fizeram para ser o que sou hoje, assim como meus irmãos. Agradeci por aqueles da família que não tenho muito contato. O amor abraça a todos vocês também, e embora não tenha contato, lembro de cada um de vocês nos momentos em que existia um contato, mesmo que distante, e isso, de certa forma, já é o suficiente.

E ao falar em família, a prática escrita termina com a lista C, onde os nomes dos ancestrais são colocados.

O meu avô materno havia falecido no início de Setembro de 2012. Acredito que tenha esperado um pouco mais de tempo em realizar a prática em respeito ao falecimento recente dele. No entanto, este fato permitiu que mais uma vez revelações do passado de minha família fossem revelados pela querida dona Judith, uma das donas de meu coração. Descobri, em meio há algumas tardes de boas histórias, por exemplo, o nome dos pais dela, e dos pais do recém falecido sr. Hilton.

Acrescentei também o nome de uma senhora que foi vizinha de nossa família por muito tempo e foi muito presente durante a infância de meus irmãos, dona Luzia, assim como sr. Francisco, um senhor que ganhou o respeito de meu pai, principalmente quando o pai dele faleceu. Acrescentei eles por perceber que outras pessoas da família [no caso, meus pais], tinham respeito por eles. E se eles respeitam, eu também respeito.

E durante 31 dias eu levantava mais cedo do que estava acostumado, para preparar um pequeno criado-mudo com uma toalha branca, uma antiga foto do meu avô paterno, um copo com água e uma xícara de café feito e coado por mim. Uma vela branca com uma chama imóvel me assistia juntamente com o olhar de um dos patriarcas da família, enquanto citava o nome de pessoas que me magoaram, direcionando a elas um perdão pelas mágoas, um agradecimento pelo aprendizado e uma benção por estarem presentes em minha caminhada, em minha vida. E em seguida agradecia a tudo o que está disponível a mim, e que nunca receberam o devido valor. E pedia que os laços espirituais com os entes idos fosse fortalecido, que a presença deles fosse constante, pois mesmo mortos, os laços espirituais e familiares são mantidos.

Os primeiros dias formam muito fortes para mim, especialmente em relação a lista C. Chorei bastante durante a prática ao recordar deles, mesmo lembrando dos meus velhinhos sempre em situações felizes, rindo. Sentia sempre, durante a lista A, a necessidade de que meu coração estivesse aberto de forma sincera e em alguns dias percebi que não estava fazendo aquilo da maneira correta. Estava fazendo de forma robótica, por fazer. Isso não era sincero. E então na minha prece inicial eu sempre pedia para que meu coração fosse aberto para realizar de forma sincera aquela prática e que cada palavra proferida fosse falada não da boca-corpo, mas da boca-coração.

Porém, o Orai e Vigiai não é somente isto. Ao longo dos dias existem provas apresentadas a mim e elas deveriam ser vencidas. Especialmente se da sua lista A fazem parte de pessoas com as quais você convive.

Surgem situações que lhe convidam ao falar, pensar ou agir de maneira incorreta em relação aos que estão na lista A. E é contra as armadilhas destas situações que aquele(a) que realiza esta prática deve lutar. Inicialmente, logo que as situações apareciam, um estalar acontecia e logo percebia que estava diante de um teste. Assim, logo tentava mudar de assunto, ou sair do lugar onde as pessoas estavam criticando outras.

Um exemplo que me surpreendeu foi o de uma pessoa que estava na minha lista A, um dos meus superiores no trabalho. Sei que minha relação com ele nunca foi das melhores desde o primeiro dia em que vi e convivi com ele. No entanto, desde o dia em que comecei a realizar a prática, minha relação com ele mudou drasticamente. Era comum, por exemplo, brigas constante, ou caras fechadas, ou aborrecimento de ambas as partes. Após iniciar a prática, a forma como ele se dirige a mim mudou, o tom de voz comigo mudou, o tratamento, enfim. Fiquei surpreso com tudo isso. E a mudança deve ser recíproca.

No entanto, novamente para minha surpressa, algo me mostrou que muitas coisas precisam mudar. Uma das pessoas mais 'espiritualizadas' que trabalham comigo, um dito irmão em Cristo, mostrou-se a pessoa mais crítica em relação a este superior. Fiquei surpreso ao ver o quanto a filosofia religiosa seguida por ele não permitiu que as virtudes e valores pregados fossem direcionados ao trabalho e à convivência, ao mudar. Em certo dia, após o expediente, este irmão me chamou e começou a apresentar uma série de fatos e acontecimentos e abertamente até mesmo o desejo de que o superior fosse demitido.

Fiquei feliz em ver que na grande maioria das situações, tinha a noção de como agir [na verdade, evitar agir, pensar ou falar] e o quanto isso me trouxe coisas boas posteriormente.

Para finalizar este relato, estas são as conclusões finais quanto ao Orai e Vigiai. Esta prática é uma série de desafios: é refletir sobre quem lhe magoou [e quem também você magoa], é um reconhecimento pelas coisas que você tem e que estão disponíveis para você e é um resgate aos seus ancestrais. E como dona Judith diz, recorda é viver duas vezes, e ao recordar de seus ancestrais, você recorda de uma história que também é sua, permite que eles façam parte de sua vida, assim como você faz parte da história deles, continuando o legado deles.

Muitas coisas melhoraram para mim após a realização da prática. Minha relação com minha família mais próxima, por exemplo, está mais forte e presente. Mantenho mais contato com muitas pessoas que agradeci na lista B. Tive a oportunidade de conhecer de outra forma algumas das pessoas da lista A. Uma delas, por exemplo, é um estudante de Tarô e eu, como aprendiz no estudo deste óraculo, estou aprendendo, na medida do possível, com esta pessoa.

Sintia, sempre, uma presença confortante no local onde realizava a prática. Até o cheiro do café, ao voltar para casa, lembrava a casa do velho Joaquim. Assim que terminei o período da prática, senti a falta de todo o dia, ao acordar, desejar bom dia a ele, naquela foto, novo, jovem e de pedir sua benção ao sair.

O motivo de relatar a prática aqui é para mostrar que algo tão simples quanto o Orai e Vigiai possui sim, um poder incrível. Por este motivo a simplicidade da prática é de um efeito profundo. E desde então eu decidi recomeçar muitas coisas. Meus estudos estão com um combustível acrescentando e muitas coisas boas estão acontecendo.


Basta que seja  cessado o berrador, o agressor, o maquiavélico pensador interno, e então surgirá compreensão. Então o orador, numa prece constante, em sussuros, será ouvido. Aquele que pensa antes de agir, será percebido. E o sábio interno será buscado. É necessário e importante cessar algumas coisas, às vezes, para que os verdadeiros agentes possam ser percebidos.

E ao fim, descobri que estas bençãos e muitas outras estiveram sempre ali, prontas para serem recebidas. Faltava apenas espaço, faltava apenas onde colocar. Contudo, o vaso, o receptáculo para elas, o anfitrião destas boas dádivas, estava sempre ocupado com um vinagre, um conteúdo nocivo, um ácido, com visitantes que não mereciam atenção. E descobri que quando você se livra deste ácido, deste vinagre, destes maus hóspedes, você é capaz de receber as boas dádivas. Tudo é questão de esvaziar e estar devidamente preparado para recebê-las.


Basta esvaziar o vaso e estar disposto a preenchê-lo com um bom conteúdo.

Que as bençãos possam ser dos mesmo número das estrelas do céu.

Amém!

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