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Hereditariedade fragmentada

Imperatriz, 27 de Julho de 2011.

Durante o período de férias, dividi meu tempo em viagens entre a cidade onde a maioria dos meus parentes moram atualmente, inclusive meu pai, mãe e tias, e a cidade onde nasci. Os motivos foram dois, sendo o primeiro deles por conta de algumas consultas médicas que deveria fazer e por conta da minha vó e meu vô. Depois que vim morar em São Luís o contato com eles se tornou cada vez mais difícil, até mesmo por telefone.

Sempre foi fácil perceber que não tive tanto contato com meus avôs, tanto paterno quanto materno e isso é algo que ocorreu desde tenra infância. Não sei bem como explicar, mas minhas afinidades com as mulheres da família sempre foram mais fáceis (tias, primas, avós, vizinhas) do que com os homens. Já o contato com minhas avós sempre foi mais fácil. A paterna, muito provavelmente, por conta de minha semelhança física com meu pai. A materna, por um grande amor e cuidado que nunca soube de fato de onde brota.

Eu nunca tive a grande preocupação de questionar sobre o passado de nenhum dos meus avôs e avós. Primeiramente devido ao desinteresse de que em minha fase de infância e adolescência, não existia essa preocupação ou interesse do passado deles. E após perder o vô Joaquim em 2007, enquanto estava em um período de 'escurecimento', e depois de alguns meses foi que descobri a importância do passado de meus pais, de meus avôs, de minha família. Após o falecimento dele eu percebi que boas e dolorosas lembranças se foram, e essas lembranças não eram exclusivamente do seu Joaquim, mas de toda a família. Não era apenas os arranjos simples tocado em um teclado eletrônico, ou um violão velho guardado no fundo do quarto de tijolos de barro crú, tampouco os versos simples escritos em uma cartolina e pendurados próximo ao seu quarto, falando que riqueza alguma compraria o seu sossego descoberto em sua simplicidade.

Minha mãe foi quem conseguiu me esclarecer algumas coisas e sobre esse ancestral, disse que ele foi encantado pelo o sonho do garimpo, mas nunca conseguiu grandes riquezas. Esse sonho também foi compartilhado por alguns dos filhos, e um deles foi meu pai. A dor que meu avô se arrepende, foi a de deixar sua família por mais de 40 anos sem ter notícias suas. A mãe dele, segundo o que minha mãe contou, sempre soube que seu filho não havia morrido, como algumas pessoas disseram, e ela morreu segurando em suas mãos a foto de seu filho querido. Ele, arrependido, chorava sempre por conta disso.

Felizmente os meus avôs paternos ainda estão vivos e ainda posso ouvir as histórias de dona Judith. Quanta vida em tão pequeno corpo! Durante essas visitas, ela sempre falava de seu pai, seu Antônio. A memória dela está falhando, mas para esses acontecimentos passados ela ainda tem uma recordação muito boa. Ela perdeu a mãe muito cedo e foi educada pelo pai. Por isso ela considera o pai dela um homem muito sábio, conhecedor dos segredos da vida, pois vivera tanto nos interiores quanto nas cidades, por isso viveu diversas coisas. Ontem, quando meu primo deixou um pouco de comida no prato, ela disse: 'meu pai assim dizia, aquilo que a terra dá, a terra come', que pensei ser apenas uma idéia do processo de renovação de resíduos sólidos, mas ela me disse que a terra dá o alimento ao homem para que o homem (corpo físico) sirva de alimento, algum dia, para a terra.

E então eu perguntei sobre o pai dela, o admirável seu Antônio... e assim ela me contou:

"Todo mundo estava esperando os preparativos para o casamento, que seria no interior. Naquele tempo eles faziam uma festa grande e os preparativos eram feitos com muitos dias de antecedência. Preparavam as bebidas, matavam os bois para assar, traziam as grandes panelas para preparar as comidas e os familiares e amigos chegavam. Durante esses preparativos, papai ficou sabendo que a mulher que era sua noiva era 'amigada' com um outro rapaz. Mas naquele tempo, quem ficava noivo de alguém, deveria casar, não podia recuar, pois era trato de família. Meu pai, que não era besta, resolveu fugir, indo para as proximidades de Serra Azul, no Ceará. Lá era onde os donos de terras colocavam os 'bons meninos' — e assim dona Judith chamou os malfeitores daquele tempo para que eles ficassem trabalhando, e quando fosse preciso, mandar eles fazerem algum 'trabalho'.

Ele ficou lá até que o sumiço dele fosse percebido e a noiva pudesse dar conta de que o sua traição já havia sido percebida. Mas ele não passou despercebido. Aqueles homens que lá viviam, logo desconfiaram que não era normal um rapaz estudado viver naquele lugar, reduto de capangas. Logo um deles comentou com outro que no quarto de Antônio havia uma sacola muito grande de dinheiro. E preocupado, papai tentou logo dar um jeito de sair de lá. Mas ele não podia sair durante o dia, para que ninguém encontrasse ele, principalmente algum amigo da família da noivo, ou algum irmão.


Então ele encontrou um senhor que disse que o levaria até a fronteira da tal Serra Azul com aquele interior, para que ele pudesse fugir de lá também, antes de que alguma outra coisa pior acontecesse com ele. Deveria ser de noite. A única coisa que o acompanharia seria a família dele, que ele não queria deixar sozinha, e um lampião para iluminar o caminho. A caminhada foi durante boa parte da noite e ao chegar próximo da fronteira. 'Daqui em diante eu não posso levar o senhor', disse o homem que levou Antônio até ao limite do interior. Em recompensa, Antônio entregou algum dinheiro ao homem.


Em seguida ele seguiu sozinho, até encontrar em um casebre um velho. E lá ele pediu acolhida, ou que ele apontasse por onde deveria ir para que não encontrasse as pessoas que ele não deveria ver, com grande ameaça de por sua vida em risco. E o velho disse: 'meu filho, outro caminho por onde ir não há, somente esse, e é encontrando essas pessoas. E papai decidiu enfrentar o seu destino, disse minha vó, mas antes de seguir caminho, o velho deu um chapéu ao meu pai, e disse: 'com esse chapéu e ao dizer estas três palavras, mesmo diante de quem te procurar, não serás reconhecido'". Dona Judith não se recorda das palavras, e minha mãe me contou uma outra parte ou versão dessa história, dizendo que ele se vestiu de outra forma. Mas as duas falam que ele passou sim diante de um dos irmãos da noiva, e que não foi reconhecido.


As palavras ficaram no esquecimento de dona Judith. E ela conta que seu Antonio conseguiu fugir do Ceará dessa forma, escapando do casamento com uma noiva já comprometida e da ira da família dela. Ela casou com o outro pretendente e a família dela hoje vive em abundância e riqueza. Seu Antonio voltou para agradecer ao tal velho que lhe ajudou, mas segundo ele, nunca ele mais foi visto, nem mesmo o seu casebre.


Estes poucos fragmentos da minha família me deixaram contente, por poder conhecer um pouco do que aconteceu com aqueles que vieram antes de mim. Se são totalmente verdade, ou estão dentro de alguma lenda ou fantasia, não sei, mas são essas histórias, nossas histórias, juntamente com o respeito e os valores familiares, que devem ser mantidos.


Agradeço aos que já se foram, seu Joaquim e tio Geová, e aos que ainda estão aqui, dona Judith, dona Olívia e seu Nilton. O amor de vocês, mesmo com o rigor dos conselhos, faz todos os seus filhos, netos, sobrinhos, e amigos crescerem. Obrigado!


Leonardo M. P.

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